Um dia minha mãe apareceu em casa com uma coisa peluda, que cabia na palma da minha mão. Ela tinha uma orelha marrom e uma mancha marrom no corpo, seu fossinho era rosado e ela balançava o rabo com uma velocidade inacreditável. Meu irmão a olhou e disse: ela vai se chamar Liza, e eu nunca poderia imaginar tudo que ela seria nos seus 14 anos e meio de vida.
Eu conseguir queria escrever muita coisa sobre ela: a forma como ela dormia, o terrorismo que ela fazia quando ficava presa (ela picava todos os jornais que ela encontrava pela frente), como ela não estava nem ai para qualquer barulho ao seu redor, a forma como ela pedia seu ossinho e seu vestido rosa...
Há dois anos percebi que ela estava ficando magra - e ela nunca foi magra, tanto que eu a chamava de gorda. Começou a beber água demais, a fazer xixi demais e a dormir demais. Então apareceu um machucadinho na pata que nunca se fechava por inteiro, e ela continuava a emagrecer... Tivemos que levá-la ao veterinário, depois de uma noite inteira em que ela dormiu no pé da cama da minha mãe. Lembro que levantei às 7 da manhã e fui praticamente de pijama com ela na clínica, de tão estranha que ela estava. Quando fizeram os exames, descobrimos que ela estava diabética. Em 2 meses ela emagreceu 3 quilos e ela foi castrada para que a diabetes pudesse ficar mais estável, mas não deu tempo de evitar a cegueira completa que a atingiu.
Então ela voltou pra casa, depois de 60 dias internada. Quando ela chegou, ela só dormia... Achei que ela não fosse sobreviver às limitações que a diabetes havia lhe dado, até que 15 dias depois, cheguei na sala e vi andando muito devagar, como se tivesse contando os passos até a cozinha e depois de mais ou menos 1 mês ela aprendeu a ''ver'' tudo denovo, do jeito dela. Engordou, passou a latir denovo, e sempre se testando cada vez mais. Indo cada vez mais longe dentro de casa. Ela passou a trombar muito menos em qualquer parede, cadeira, vassoura ou cama do que eu, que vivo com a perna roxa de trombar nas coisas.
E entre altos e baixos ela estava firme, se virando e nos ensinando que não existem obstáculos para as limitações que a vida nos empoe.
Há 4 meses foi detectado o câncer de mama nela. Após uma longa conversa com os veterinários e a família, decidimos que operá-la estava fora de questão. Seria o mesmo que operar uma pessoa de 98 anos de idade, ou seja, os ricos seriam altos demais e a chance dela sobreviver seriam mínimas, além do que a diabetes dela, atrapalharia e muito na recuperação e talvez até piorasse. Decidimos então viver com a Liza o máximo que ela conseguisse, dando o conforto que ela merecia até que ela não pudesse mais permanecer aqui.
Rezei diariamente para que ela morresse dormindo, tranqüila.
Mas ela estava diabética, com câncer, e nessas ultimas semanas de final de ano ela passou a ter reações muito suspeitas. Tentava ficar próxima o máximo que podia, mas percebemos que ela voltou a dormir muito, comer quase nada e teve várias crises.
No dia 31 de dezembro de 2010, eu a levei para a clinica veterinária onde ela ficaria na rivada do ano, para que não ficasse sozinha e fosse bem cuidada, ate no dia01 de janeiro.
No dia primeiro, acordei as 7 da manha com o telefone tocando e quem atendeu foi minha mãe, e ela me informou que a veterinária havia ligado para informar que a Liza, na virada do ano, teve 4 convulsões e ficou desmaiada por um longo tempo. Descobriram que o câncer havia atingido o pâncreas e ela não poderia mais voltar pra casa.
Então decidimos dar a ela o descanso que ela merecia ter. Fui até lá, olhei pra ela e disse: Liza eu te amo e vou te dar o descanso que você quer (porque eu tenho certeza que ela só estava reagindo ainda, por nós). Sai da clínica levando a filha dela, mas ela, do jeito que eu levei, não voltou mais. Sei que fiz o certo. Não queria que ela morresse sentindo dor. O veterinário informou que ela morreu como se tivesse dormindo, tranqüila e em paz.
...E a Liza me ensinou nesses 14 anos, que amor é incondicional, que não existem obstáculos que não possam ser superados e que às vezes temos que abrir mão, para seguir em paz.
A dor que sinto desde ontem se compara a um elefante sentado em meu peito. O choro é incontrolável, mas eu sei que vai passar, um dia vai.
Vá em paz Lili .. Você foi ''o melhor amigo do homem'' que eu conheci, e sei que existe em algum lugar, um espaço especialmente reservado pra você com tudo o que você merece... E todo o amor que você teve nesses 14 anos por nós.
Te amo pra sempre!
Beijo
Nani,
ResponderExcluirAdorei seu texto e sei exatamente do que vc está falando... esses bichinhos chegam devagarzinho e quando nos damos conta já são essenciais em nossas vidas!!!
Beijos, força aí!
Todos os cães merecem o céu. E a Lili tem, com certeza, um pedaço bem grande só pra ela.
ResponderExcluirVocê disse tudo aí no fim...um dia passa. Tô com você, Nani...pra tudo!
Beijo!